sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O pecado de ''Liberdade Liberdade'' foi deixar o melhor para o final

Joaquina (Andreia Horta) vai á forca (Foto: Divulgação/TV Globo)

Uol crédito

Se “Liberdade Liberdade” tivesse começado no ritmo que terminou, certamente sua audiência e repercussão teriam sido melhores. A novela das onze da Globo – escrita por Mário Teixeira com direção artística de Vinícius Coimbra – teve seu último capítulo exibido nessa quinta-feira (04/08) fechando uma média geral de 18 pontos no Ibope da Grande São Paulo, dois pontos a menos que a atração do ano passado, “Verdades Secretas” (que conquistou o grande público desde o início, tornando-se o maior sucesso entre as novelas das 23h desde que a Globo implantou a faixa, em 2011). Sob este prisma, o pecado de “Liberdade Liberdade” foi justamente ter deixado o melhor para o final.

A novela brindou o público com produção e direção de arte esmeradas que retrataram sem maquiagens Vila Rica (atual Ouro Preto, Minas Gerais) entre o final do século 18 e início do 19. A fotografia escura tonificou a aparência encardida de cenários, figurinos e atores, impregnando um realismo poucas vezes visto em produções de época na TV brasileira (compare com “Escrava Mãe”, da Record, que abrange o mesmo período).

As maiores qualidades de “Liberdade Liberdade” estão na produção e direção (elogios à equipe técnica de Vinícius Coimbra), e no elenco. Uma galeria de personagens cativantes na pele de atores em sintonia com a narrativa, com destaque para Mateus Solano (como o vilão Rubião), Marco Ricca (o bandoleiro Mão de Luva, um de seus melhores momentos na televisão), Maitê Proença (a amarga Dionísia), Lília Cabral (a sofrida Virgínia), Zezé Polessa (a comedida Ascenção), Nathalia Dill (a mimada Branca), Juliana Carneiro da Cunha (como Alexandra, precisamos vê-la mais na televisão), Caio Blat (na medida certa como o sensível André, fugindo da caricatura do “gay de época”) e Ricardo Pereira (como o Capitão Tolentino).

Andreia Horta também desenvolveu um bom trabalho como a heroína Joaquina/Rosa Raposo. Heroína não, mocinha! Aqui cabe uma crítica à personagem (não à atriz). A novela vendeu Joaquina, a filha de Tiradentes, como uma espécie de grande revolucionária. Mas o que se viu na maior parte da trama foi pouca luta (logo, pouco foco na História) e uma mocinha de melodrama que sucumbiu às armadilhas e à gratidão por Rubião (Mateus Solano), caindo muito facilmente em sua rede, assim pouco condizente com o perfil de heroína. Andreia Horta fez o que pôde, mas Joaquina/Rosa poderia ter sido bem mais, em concordância com a proposta inicial da novela.

Como escrevi recentemente (AQUI), “Liberdade Liberdade” começou bem, porém modorrenta e levou um tempo até se estabelecer – chamei o roteiro de enviesado. A luta pela Independência serviu apenas de pano de fundo a uma trama que andou em círculos e que, ao final, concluiu-se: poderia ter se passado em qualquer época e lugar. Vale lembrar que esse não era um projeto de Mário Teixeira. O novelista (recém saído de “I Love Paraisópolis”, uma comédia das sete) foi convocado para tocar algo que estava em andamento (a autora original, Márcia Prates, foi afastada porque a emissora não estava satisfeita com o que ela vinha apresentando).

Independentemente do roteiro enviesado até mais de sua metade, a novela apresentou uma reta final de perder o fôlego. Ainda que o autor tenha apelado para cenas de violência física para chamar a atenção do público (enforcamento, emparedamento, membro decepado, olho arrancado, veja a relação AQUI), tudo coube na proposta da novela e no horário de exibição. A primeira cena de sexo entre dois homens (André e Tolentino) marcou pelo ineditismo. A abordagem do drama de André mostrou que o sonho de liberdade que se propôs a novela foi bem além do jugo da Coroa Portuguesa.

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